Desaboio

Uassyr Siqueira

Complicado o funcionamento de nossa memória. Ela sempre se forma no presente, remoendo a matéria prima profunda composta por nossas lembranças, experiências e pelas memórias de outros, que se acabam incorporando à nossa memória. Quando li e ouvi Desaboio, imediatamente me veio à tona esse processo de formação da memória do cerrado, construída, em parte, pelas lembranças das experiências próprias dos autores e pelos relatos de outros sujeitos. Saulo Alves lembra, carinhosamente, a importância de sua avó, Alice, para que conseguisse rememorar o cerrado em seu livro, feito em parceria com o amigo Paulo Nunes, mas que contou com a colaboração de vários outros artistas. As poesias contam as coisas do cerrado, ou melhor, mostram um cerrado com sua paisagem de passarinhos e gente que se cruzam. As letras foram musicadas de arranjos com a velha viola caipira e outros instrumentos de corda, como o violoncelo, que dão um sabor mais intenso – e às vezes tenso – e especial às canções. Mas o que chama mais atenção é a presença humana na paisagem rememorada do cerrado: o boiadeiro tangendo o gado, que luta para não se contaminar com a tristeza da boiada, que luta para não ser confundido com o próprio gado pelo caminho. As canções nos lembram o quanto há de comum entre seres humanos e o gado, muitas vezes unidos e confundidos na dureza da estrada. É essa mesma dureza que tange o homem para a cidade, desolado pela substituição do verde das matas pelo inferno das queimadas e em busca de carinho e fama: e aqui o livro capta muito bem o que foi o processo de ocupação e desmatamento do cerrado, atendendo aos interesses do agronegócio no campo. Captam também os sonhos de muitos camponeses que, indo para a cidade, sonhavam em ganhar a vida como músicos. Mas se na cidade a viola quebra, a coisa complica, pois é necessário seguir adiante e sobreviver de diferentes maneiras: trabalhado para políticos, como espantalho, se consolando apenas porque, apesar das amarguras, o canto ainda existe. Enfim, só resta o convite ao leitor, que talvez ao ler e escutar o livro também rememore alguma experiência rural, que foi vivida ou ouvida pela voz dos pais, dos avós ou de algum amigo querido. Diante do que somos expostos em nossa vida na cidade – correria, stress, violência urbana – somos seduzidos, ao som do pagode de viola, a almejar termos como obrigação apenas comer um pocó ou uma galinha, regados de boa prosa, amizade e uma boa cachaça mineira.

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