Muitas Minas, nosso Cerrado

Luiz Humberto Arantes e Regma Maria Santos

A geração de mineiros que hoje vive entre seus quarenta e cinquenta anos talvez tenha sido a última a assistir ao Cerrado na sua inteireza. Na sua opulência de formas de troncos e galhos tortuosos, um Cerrado possuidor de uma diversidade de espécies, de muitas flores em várias tonalidades e também muitos frutos. Quem viveu nestas regiões de Minas e Goiás teve uma infância rural de proximidade com o Cerrado — o qual hoje não conta mais do que com cinco por cento de mata nativa.

Aquela geração teve a oportunidade de ser a criança que observava formigas trabalharem nas cascas grossas do Angelim e na Caviúna do Cerrado; que caçava frutos e se alegrava quando encontrava um Araticum maduro, com seus gomos azedos, mas sempre macios. Felicidade também com o achado de uma Mangaba, uma Pitangueira ou um pé de Gabiroba, frutos para aliviar o calor do sol do Cerrado ou para fazer sucos em casa. Muito mais encontradas do que o Murici, que, baixo e de folhas largas, é de difícil localização. Já o Pequi não, este se vê de longe, seja pelos seus frutos, seja pelo cheiro peculiar.

Foram pequenos, meninos que passeavam pelas veredas, também chamadas de ‘corgos’, olhando para as copas dos imensos Buritis, fornecedores de folhas para a cobertura de cabanas e choupanas. No caminho, não foram poucas as Cagaitas admiradas pelas cores de suas flores — branca e roxa — e pelo amarelume de seu fruto. Beleza observada, muitas vezes, a partir de um descanso debaixo da sombra do Capitão do Mato, árvore grande e frondosa, mas de madeira fraca.

Distante criança que também brincava de subir em árvore, não só em Goiabeira, mas também em Jacarandá do Cerrado, árvore de muitos galhos, às vezes solitária lá no meio do ‘pasto’ de antigamente. Hoje, algumas sozinhas observam a imensidão da plantação de soja e cana. Função, vez ou outra, exercida também pelo Jatobá do Cerrado e pelo Pau-terra.

Muitas outras crianças viveram outras vidas, brincaram outras árvores do Cerrado; a lista é imensa e a prosa é curta: Cedro, Copaíba, Ipê-amarelo, Angico, Jacarandá, Jatobá e Jequitibá são algumas delas. Esta última, um dia lembrada nos versos do poeta da música-raiz de Coromandel, Gerson Coutinho, o Goiá, quando compôs ‘Saudade de minha terra’: “E vou escutando o gado berrando,/ Sabiá cantando no jequitibá”.

Muitos dessa geração de moradores do Cerrado fizeram há tempos o caminho para a cidade, vivem a vida do asfalto, a velocidade do progresso real e virtual. Não se esqueceram do Cerrado da infância, às vezes plantam coqueiros para lembrar daquelas árvores, cortam a grama e enfeitam jardins. Quando lembram do sabor, vão a uma sorveteria e pedem um picolé ou sorvete de antigos frutos do Cerrado. Outros escrevem poesias e compõem músicas de um distante Cerrado, que se perpetuarão no tempo e na lembrança, como as plumas das Paineiras levadas pelo vento do outono.

Esta é a missão do presente trabalho de Saulo Alves, Paulo Nunes e parceiros (cúmplices), intitulado Desaboio. Este termo, conceito, palavra reinventada por meio da música, trata da relação do homem que habita os rincões com o seu ambiente, descrevendo não somente uma paisagem externa, mas também a alma, os costumes, a cultura de foliões, rezadores, boiadeiros e violeiros.

Dois artistas cerradeiros, ou cerradianos, se assim preferem, com alma e corpo muito parecidos às daquelas árvores citadas neste texto. De uma teimosia soberana em continuar — apesar do sol escaldante, do desmatamento, da recusa, dos alagamentos para construção de usinas. O Cerrado, assim como Saulo e Paulo, continua a cumprir o seu trajeto e a nos exigir reverência. Eles nos pedem também para entender que, assim como o Cerrado, com suas árvores tortuosas em extinção, é possível e necessário construir, por meio da arte — e da música, especialmente —, uma memória do homem e de sua cultura, no seu lugar de origem!

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