O Cerrado é Muitos

Ricardo Ferreira Ribeiro

O Cerrado é muitos, é plural, múltiplo do infinito, são tantos seres e viveres num só, que é dito cerrados. Na verdade, são os campos cerrados: nem a largueza campestre dos sem-nem-arbustos, nem o mundo de sombras das florestas. No meio termo da sabedoria, são os campos fechados, cerrados, que dominam o seu existir, surgindo daí o seu nome. Porém, para mais dificultar o entendimento, ele é isso e mais tudo que não é.

O Cerrado maiúsculo vai das paisagens abertas ao fechar das matas. Suas árvores se juntam em galeras de galerias, cílios ao longo dos rios, matas dos olhos d’água lacrimejando regatos, que outras vezes surgem da areia e vão veredeando entre palmeirais de buritis. Como “Pai das Águas”, o Cerrado alimenta os rios que correm em várias direções: para o norte vão o Araguaia, o Tocantins, o Xingu e tantos outros, a encher o grande Amazonas. Nessa direção, desce também o Parnaíba a separar o Maranhão do Piauí nos limites equatoriais cerradenses. Para leste, no rumo da Caatinga Nordestina ou da Mata Atlântica, seguem o São Francisco, o Pardo, o Jequitinhonha e o Doce. Para oeste e depois ao sul, se unem o Paranaíba e o Grande a formarem o Paraná, exportando para o Paraguai e Argentina nosso Produto Interno Líquido.

Se é sob a proteção das árvores que ele escorre, é nas chapadas altas, de vegetação mais pouca, que a chuva penetra na terra. No Cerrado, o ano se divide na verdura das águas e na palidez da seca, ensinando a toda a natureza os tempos bíblicos de vacas gordas e magras, um a iluminar a lição do outro.

É nessas áreas mais altas e abertas onde mais se aprende o valor da vida que morre e renasce, a cada ano, entre os seus capins e raminhos. Esses campos são de muitos modos: brotam na impossibilidade das pedras, nas altitudes rupestres; podem ser limpos de todo pau; ou irem se sujando de pequenos arbustos e arvoretas, para se cerrarem em carrascos, gerais, até se agigantarem em aumentativo: cerradões.

Lá se aglomeram em multidões de árvores das matas ou daquelas que vivem mais isoladas, retorcidas por uma vida dura, que transforma suas folhas na aspereza do couro e que as torna umas “cascas-grossas”. Assim como a gente desses sertões, essa rudeza vegetal é só aparente; quando melhor se conhece, descobrem-se, no detalhe, flores de cores várias, mães a frutificar em tantos sabores: pequis, araticuns, cagaitas, coquinhos, mangabas, barus, ananases, cajus, buritis, muricis, jatobás e tantos sumos a escorrer das bocas ávidas da infância.

É nessa fartura que os pássaros vão buscar o alimento para dar aos bicos abertos com a impaciência da fome juvenil. Assim, vão crescendo as ninhadas de vários bichos, a aproveitar que o Cerrado renasce com a chegada das águas e se esforça em se perpetuar. E lá se vão as sementes carregadas pelo vento, passarinhos, morcegos, macacos, cotias, pacas, ratos-do-mato e outros animais; ou expulsas pela explosão dos frutos, como a mãe que ensina seu filhote a voar na vida empurrando-o do ninho.

Do sucesso ou fracasso desse seu primeiro voo dependem outras bocas e ninhadas, que retiram da carne a saúde para crescerem e viverem. Muitas raposas, gatos-do-mato, maracajás, jaguatiricas e outros olhos atentos espreitam qualquer descuido para pôr em uso sua agilidade.

No Cerrado, há animais curiosos: de grande tamanho, com unhas poderosas, mas que se alimentam de formigas e cupins, como o tamanduá-bandeira e o tatu-canastra, assim como vários de seus parentes menores. Temos também um lobo, o guará, que não tem nada de mau, pois come insetos e frutos, além de pequenos animais. Esse feiticeiro do Brasil Central não é feroz como seus parentes do Velho Mundo, mas usa da mandinga, seja nos seus dias de caçador, seja nos de caça.

Medo faz é a onça, não a suçuarana, comedeira-de-bode, mas a pintada, a lombo-preto, ou a tigre, bicho de admiração e respeito nesses sertões. Porém ela também sabe da força de um bando de queixada, com o Caipora à frente, zelando pelos companheiros e por toda a bicharada contra os caçadores de desmedida ambição.
Tantos bichos e plantas atraíram para o Cerrado, há mais de dez mil anos, as primeiras gentes disso que viria a ser, muitos tempos depois, o interior do Brasil. É ainda duvidosa a sua origem, mas é provável que tenham vindo da Ásia e pela América do Norte chegaram à do Sul, até alcançarem seu coração; ou poderiam ter vindo pelo litoral, costeando, ou até cortando o pacífico oceano. Buscar raízes é aprofundar num mundo subterrâneo, falar de passados que a memória já esqueceu, escavando camadas de eras, cheias de serás e de é possível.

Nessa antiga época, de dez mil anos passados, mais fria e seca, o Cerrado e a Caatinga reinavam no Brasil, o primeiro dominando áreas onde hoje está a Floresta Amazônica, que iria se espalhar nos seis mil anos seguintes. Restos de caroços de pequi e de coquinhos de licuri e ossos de veado e tatu, encontrados em grutas de Minas Gerais e Goiás, revelam como são antigos os pratos da cozinha sertaneja. Na panha de frutos, aproveitando outras partes das plantas, caçando e pescando, os primeiros moradores humanos do Cerrado iam vivendo ali. Nessa região, eles conseguiam o que comer, onde se abrigar no tempo das águas, material para fazer suas vestimentas, ferramentas e armas, remédios para suas doenças e outros tantos recursos que foram descobrindo. Em cada época do ano, seja na seca, seja nas águas, eles iam buscar, num dos diferentes tipos de natureza do Cerrado, aqueles recursos de que necessitavam, vivendo desse modo cigano a fazer grandes andanças. Reuniam-se em festas de fartura de peixes na seca e dividiam-se em pequenos bandos para caçar seu jeito de viver e colher os frutos da terra, no resto do ano.

No Brasil Central foi se desenvolvendo, dessa forma, um modo de vida diferente daquele dos moradores dos mangues e matas do litoral, da Floresta Amazônica, dos campos frios do Sul, ou das altitudes dos Andes. Foi, assim, construindo-se uma cultura sertaneja pré-histórica, que aprendeu a retirar do Cerrado o que era necessário para sua existência. Por volta de dois mil anos antes do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, esses Povos do Cerrado já viviam também de suas roças, plantando milho e amendoim — conforme descobriram os arqueólogos, estudando as sementes que encontraram em alguns abrigos em Minas Gerais. São mais ou menos desses tempos, também, as vasilhas de barro, os tecidos, esteiras e cordas de embira que eles acharam. Quer dizer, assim, que o plantio da terra e o artesanato são coisas bem mais antigas nesse interior do Brasil do que os quinhentos anos de história que se andou comemorando com a chegada da gente do Velho Mundo, cheia de seus orgulhos de civilização.

Os portugueses, ao achegarem-se a nossas costas, encontraram os índios Tupi do litoral e, entre trocas de presentes e guerras, fizeram amizades de conveniência. Os Tupi eram inimigos dos Tapuia, os índios de língua Jê, descendentes dos antigos moradores do Cerrado. Assim, seguindo a lei de que os inimigos dos meus amigos são também nossos inimigos, os portugueses logo viram nos Tapuia as piores qualidades: eram os “gentios de língua travada”, “gente de pouco trabalho”, “folgazã”, “vagueiam à maneira de nômades” e, ao contrário dos Tupi, “são mais intratáveis, e com dificuldade se deixam instruir”. Assim, falar em Tapuia significava dizer índio bravio, bárbaro e, durante muito tempo, se acreditou que os Índios do Cerrado não conheciam nem agricultura, nem o trabalho com o barro.

Os jesuítas, os que mais escreveram sobre os nossos índios, pouco conheceram esses povos do Brasil Central, pois quem primeiro com eles teve contato foram os paulistas, em suas bandeiras de busca de escravos e riquezas da terra. Sua braveza sempre foi de resistir ao cativeiro e à invasão do seu território, em uma guerra de mais de cem anos. Suas grandes aldeias iam buscando as entranhas do Brasil para fugir aos ataques do inimigo e das suas doenças, que, muitas vezes, os matavam em mais quantidade — e antes do primeiro tiro das armas de fogo do paulista entrante.

Para abrir suas lavras e formar suas fazendas de currais, os colonizadores investiram na estratégia de dividir para conquistar: incentivaram as inimizades mesmo entre os povos de língua Jê, pois não há vizinhos que, convivendo por muitos séculos, não criem entre si desavenças. Seja guerreando ou fazendo alianças de muitos filhos, foi com os índios do Cerrado que os bandeirantes paulistas e os fazendeiros baianos aprenderam a viver nessa região. Nas suas andanças também viviam da caça, pesca, coleta de frutos, do mel de pau, recorriam às plantas medicinais e a tantos outros recursos naturais do Cerrado. Da mesma forma, iam semeando roças nos caminhos para colher remédio para as fomes do futuro — e enraizando, aqui e ali, pequenos grupos dessa gente aventureira.

Trouxeram também novidades para esses sertões: o gado e a garimpagem de ouro, diamantes e outras pedras. Iam afazendando-se em muitas léguas de sesmarias, primeiro ao longo do Rio de São Francisco e depois mais para o interior, multiplicando-se as cabeças, ao pastarem do verde do Cerrado e fartarem-se do sal de seus barreiros. Livre nessas larguezas, o gado curraleiro crescia quase selvagem, rendendo carne, couro, sebo e outras vantagens tais para os seus criadores, que do sertão abasteciam as vilas da mineração.

Estas também surgiram em meio ao Cerrado, marcando os pontos de onde as riquezas iam sendo retiradas do fundo dos rios ou da terra, e a chegada de mais e mais gente de fora, entre eles muitos cativos da África, aqueles que realmente sabiam garimpar, pois o português, do ouro, só conhecia o brilho.

Assim, os sertões das Minas Gerais, do Goiás e do Mato Grosso iam se povoando de negros e mulatos, que compunham a maioria da sua população. Também aí iam surgindo vários quilombos, federações deles, com a fuga de muitos escravos, protegidos pelas distâncias agrestes do centro do país, onde o poder das autoridades coloniais perdia força.

Nessas distâncias, os sertões foram recebendo criminosos, devedores da Coroa, mineradores falidos, vadios, gente fora da lei, que lá ia procurar guarida. Os entrantes iam fazendo seus próprios governos, com suas leis, onde roubar era vergonha, mas matar podia ser o seu jeito de fazer justiça. De paulistas potentados em armas se transformaram em senhores dos sertões do Brasil Central, rebeldes em motins contra impostos e desmandos das autoridades enviadas pela Coroa Portuguesa às Minas. A essas, não interessava desarmonizar-se com poderosos locais, tantas vezes perdoados em suas insubordinações, mas, em certas feitas, castigados para exemplo da fidelidade a El-Rei. Perseguidos, o recurso era “cair no Cerrado”, onde a natureza os protegia, voltando, anos mais tarde, a receber o perdão da Coroa, diante das riquezas em ouro e pedras preciosas que ali encontravam. Foram assim se fortalecendo os clãs, as famílias poderosas, os antepassados dos coronéis que surgiriam no Brasil Império e dominariam a República Velha. Donos da palavra final, nessas brenhas, sabiam que o respeito dos afilhados é construído no toma-lá-dá-cá da dependência mútua e não só pela vontade férrea de quem pode.

Longe das cidades do litoral, voltadas para o além-mar da civilização, foi se formando uma outra sociedade, um Brasil-de-dentro, sertanejo, mas também diferente do interior do Nordeste, da vida gaúcha do sul ou do mundo caboclo da Amazônia. As ilusões douradas da riqueza escondida no fundo da terra foram minguando, mas nunca desapareceram por completo. Fazendo suas roças nas terras de cultura e criando o gado nos gerais sem fim, as fazendas foram se entranhando e, em torno delas, vaqueiros e camponeses construíam seu dia-a-dia, também caçando, pescando e tirando do Cerrado frutos, remédios e outras necessidades do seu viver — assim como fizeram, antes deles, os primeiros moradores dessas regiões. Mas, agora, alguns artigos, como o pescado seco do São Francisco ou as peles de várias caças, podiam ser mercadoria nos povoados e vilas, deixados pelo garimpo e pelos negócios. Era ali que se reuniam para celebrar colheitas e rebanhos em agradecimento aos santos de devoção. De pequenos amontoados de casas desertas nos dias sem missa, esses “comércios” foram crescendo e ganhando ares de cidades, ainda que continuassem pontos perdidos nas imensidões desse país interno.

As distâncias do Brasil Central foram diminuindo, já pelo final dos oitocentos, quando os vapores começaram a navegar os seus rios, e os trens e as linhas de telégrafo a entrar sertão adentro. E o Cerrado via suas melhores árvores sendo deitadas para, sobre elas, passar os trilhos de ferro; ou se tornavam guardiãs dos fios das notícias de longe e, sobretudo, eram queimadas para transportar o moderno, que tanta pressa tinha de chegar. Também iam surgindo as primeiras fábricas, mais oficinas a tecer os primeiros sonhos de progresso do que indústrias a forjar mudanças profundas na economia sertaneja. O algodão, alvejando as lavouras e desfiando novas linhas de comércio para essa região, vai abastecer as indústrias que se multiplicam em várias cidades mineiras.

Foi por esses idos de virada de século que o Cerrado viveu seus dias de Amazônia, também fazendo riqueza com a borracha — que, do estrangeiro, tanto as indústrias exigiam. Nesses sertões, não era da seringueira que ela era extraída, mas da mangabeira e da maniçobeira, espalhando cicatrizes no tronco dessas arvoretas que sangravam seu leite, muitas vezes até a morte. Do Goiás e de várias partes do Sertão Mineiro, navegava essa borracha pelo rio de São Francisco nos vapores, sendo também embarcada nos trens para alcançar os portos do litoral. Assim como na Amazônia, também nessa região o ganha-pão de borracheiros ou mangabeiros logo se viu ferido de morte com a concorrência de outros países, não resistindo além da Segunda Grande Guerra Mundial.

O comércio e os transportes deram novo impulso às cidades, portos ou estações, para onde convergia a produção das lavouras e currais, para ser embarcada do Triângulo para São Paulo e do Vale do São Francisco, em um extremo, para Salvador; e, de outro, rumo à nova capital dos mineiros e, de lá, para o Rio de Janeiro. A Pauliceia se agitava com os apitos fabris e seu interior “encafezava-se”, enquanto as cidades do litoral iam se agigantando em portos e negócios com o estrangeiro. O país via sua história feita em saltos e sobressaltos, que, do além-mar, alcançavam, a vapor, os sertões de Minas. O antigo passo a passo das boiadas se acelera, agora elas viajam nos trens para chegar mais rápido e mais longe e para fartar, com a carne sertaneja, o apetite das metrópoles em crescimento e matar a fome da Europa em guerra.

O pé-duro é visto, então, como muito pequeno para engordar um mercado em expansão: vem da Índia para o Triângulo Mineiro o zebu, a fim de mestiçar o gado nacional, selecionando-se cruzamentos para produzir bois de ouro, adorados como fortunas vivas. Esse novo modelo de criação não podia mais ser aquele dos campos abertos, das soltas, das larguezas do sertão, onde só se divisava o gado pelas marcas a ferro quente ou nas orelhas. Como selecionar as raças se o gado vive na promiscuidade de um mundo sem cercas? Os antigos fechavam apenas as roças com os paus da própria derrubada, com os muros de pedra, ou com os valos feitos pelos cativos, que não deixavam passar nem boi, nem porco, ou cabrito. Estes tinham o mundo todo para fora onde pastar; dentro dos cercos era só para plantar lavoura, e criação de quatro pés não podia entrar. Isto, até os fazendeiros inventarem a lei de subir o pé da cerca, aí a pobreza teve que prender a criação miúda, e o gado ficou dono dos pastos. Gado enraçado para dar ponto de engorda tem que ser criado em pasto plantado, não é como o curraleiro que vivia da comida que o Cerrado oferecia nas soltas.

Quem planta pasto tem que cercar: logo as terras vão se valorizando e quem tem mais condições vai comprando arame e fechando o que é seu. Onde o comércio era mais forte, como no Triângulo Mineiro, o arame foi se desenrolando primeiro, fechando as soltas, marcando a propriedade das terras. Em outras regiões, como no Alto Jequitinhonha, tem lugares de larga até hoje, mas a ambição já vai marcando seus territórios e tornando de uns poucos o que antes era de muitos.

O Cerrado foi mudando de dono e até a capital da república foi construída no Planalto Central, trazendo estradas e gentes, a cortar essas lonjuras, erguendo o moderno onde antes era só sertão. Uma nova cidade se fez cercada de antigos problemas por todos os lados e o sertanejo se acordou do sonho como candango, satélite do progresso dos outros. E a terra também se tornou valiosa nas cercanias do poder, e o que um dia foi um Cerrado torto se endireitou em retilíneos eixos gramados de uma monótona igualdade.

Os anos 1970 reservavam mudanças ainda maiores: de pesquisa em pesquisa, foram os doutores adaptando a agricultura à acidez do solo do Brasil Central, corrigindo o chão que Deus criou para o Cerrado, trazendo adubo, fosfato e calcário, espalhando veneno e outras químicas, rasgando as planuras das chapadas com muitas máquinas e fazendo e refazendo tudo ao seu modo. O mundo sertanejo virou de cabeça para baixo: as já cansadas e erodidas terras de cultura, antes de muito valor pela fertilidade natural, agora mal-mal serviam para pasto, e as terras pobres do Cerrado, que nem cerca tinham, iam sendo compradas, em escrituras de abraço, em que se adquire um pedaço e enlaça o resto.

Pesados correntões foram usados para escravizar e dobrar o Cerrado, que, como herege, ia arder até virar carvão para alimentar os fornos de moldar o ferro e o aço, para produzir mais máquinas, que vinham rasgar os chapadões. No lugar da diversidade de ervas, arbustos e árvores, implantava-se a monotonia em forma de soja, milho, café, arroz, braquiária, eucalipto, pinus e outros produtos destinados a mesas distantes, na lógica de que “exportar é o que importa”. As terras sertanejas se tornaram a nova fronteira agrícola do Japão, que financiou programas para des-envolver aquela região daquilo que tinha de mais característico: sua natureza e sua gente. Esse povo nada sabia dessas modernidades e, pela segunda vez, o interior do Brasil foi dito como um vazio a ser conquistado: “o sertanejo, como o índio, não sabe trabalhar a terra, não se impõe sobre a natureza”. Os novos donos, de cabelo louro ou de olhos puxados, sabiam fazer da tecnologia a sua enxada; do banco, a sua chuva, e do mercado, a sua colheita. Aqueles que tinham como suas as larguezas daqueles horizontes foram se amontoando e confinando nas periferias das cidades, madrugando nos pontos, carregando a boia-fria, abençoando por poder subir no caminhão, para alimentar a esperança em mais um dia de trabalho.

Do Triângulo e Noroeste de Minas, lá se foi irradiando esse progresso rumo ao Goiás e aos Mato-Grossos, avançou pelo Tocantins e o Oeste da Bahia até alcançar, nesses dias, o sul do Maranhão e do Piauí. Onde tem Cerrado, a história foi se repetindo como um comercial de TV e deixando atrás o mesmo rastro de pó das grandes implosões. Não só desapareceram o Cerrado e os seus bichos, as terras se compactaram com o peso das máquinas, os rios se encheram de erosão, o veneno se espalhou pelo solo, pela água e pelos seres humanos e outros viventes.

O Cerrado, com suas árvores pequenas e retorcidas, estava destinado a ser fronteira agrícola e não foi visto com interesse pelos ecologistas, não sendo considerado Patrimônio Nacional na nossa Constituição, como foi feito com a Floresta Amazônica, a Mata Atlântica e o Pantanal. Em trinta anos, sua destruição tomou proporções de desastre — e já começa a ser considerado, internacionalmente, como uma das paisagens naturais mais ameaçadas do planeta.

Os olhos do mundo principiam a se voltar para a riqueza desse bioma de tanta variedade de vida e de tanta diversidade de recursos naturais para o uso humano. Redescobre-se como índios e sertanejos faziam para dele se utilizar, mantendo, ao mesmo tempo, sua vida e vitalidade. Projetos de uso sustentável do Cerrado se multiplicam, por meio do diálogo entre o saber popular e o conhecimento dos técnicos, envolvendo comunidades camponesas, indígenas, quilombolas, ribeirinhas, assentamentos de reforma agrária, grupos de artesãos, mulheres, jovens e tantas outras diversificadas formas de organização popular. Estas se unem e trocam experiências e solidariedades na Rede Cerrado de Organizações Não-Governamentais e nas articulações como a Pacari de Plantas Medicinais e a de Agroextrativismo.

Buscam-se, na história, outras formas de convivência humana com o Cerrado, alternativas ao modelo que aí se implantou, gerando tantas mazelas sociais e ambientais. Não se trata de voltar para o tempo passado, mas tirar dele lições para se construir o futuro. É nesse sentido que cada região deve buscar sua história, não apenas a humana, mas também a do mundo natural em que está inserida. Nós humanos tanto atuamos sobre ele, modificando-o, como ele age sobre nós, limitando nossas opções, sem definir os caminhos a seguir. Rever essa relação com aquele pedaço de natureza com que convivemos no nosso dia-a-dia é a melhor forma de nos integrarmos numa dimensão planetária em direção a um mundo novo.

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